Recebi por e-mail enviado por uma grande amiga minha, este texto de 1934. O que este texto possui de fantástico, é a sua actualidade e possibilidade de se aplicar transversalmente aos mais diversos assuntos
EXPOSIÇÃO DOS LAVRADORES DO BAIXO ALENTEJO A SUA EXCELÊNCIA 0 MINISTRO DA AGRICULTURA Autor: João de Vasconcelos e Sá Min . da Agricultura: Eng. Leovigildo Queimado Franco de Sousa Porque julgamos digna de registo A nossa exposição, Senhor Ministro, Erguemos até vós, humildemente, Uma toada uníssona e plangente Onde evitamos o menor deslize E onde damos razão da nossa crise. Senhor... Em vão esta província inteira Desmoita , lavra e atalha a sementeira, Suando até a fralda da camisa. Falta a matéria orgânica precisa Da terra, que é delgada e sempre fraca; A matéria em questão chama-se CACA. Se os membros desse ilustre ministério Querem levar o nosso caso a sério E é nobre o sentimento que os anima, Mandem-nos cagar toda a gente em cima Dos maninhos torrões de cada herdade, E mijem-nos também, por caridade! 0 Senhor Doutor Oliveira Salazar Quando tiver vontade de cagar Venha até nós, solícito e calado, Busque um terreno que estiver lavrado, E como Presidente do Conselho Queira espremer-se até ficar vermelho. A Nação confiou-lhe os seus destinos; Então comprima e aperte os intestinos, E se escapar um traque não se importe; Quem sabe se cheirá-lo dará sorte? Quantos não porão suas esperanças Num traque do Ministro das Finanças! E quem vive tão aflito e sem recursos Já não distingue os traques dos discursos; Não precisa falar. Tenha a certeza De que a maior fonte de riqueza Desde os montados negros às courelas Provém da merda que despejamos nelas. Ah! Merda grossa! Merda fina! Merda boa Das inúteis retretes de Lisboa! Como é triste saber que todos vós Andais cagando sem pensar em nós! Se querem fomentar a agricultura Mandem-nos muita gente com soltura E nós daremos trigo em alta escala. Também nos faz jeitinho a merda rala. Terras alentejanas, terras nuas, Desespero de arados e charruas, Quem as tem, quem as compra, quem as herda, Sente a paixão nostálgica da merda!... E que todos os penicos portugueses Durante pelo menos uns seis meses Sob o montado ou sobre a terra campa Continuamente nos despejem trampa, Adubos de potássio, cal e azote. Mandem-nos merda pura de bispote; Não fazemos questão de qualidade; Formas normais ou formas esquisitas, Desde o cagalhão às caganitas, Ou da negra poia à grande bosta, Tudo quanto for merda a gente gosta.

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